Eleições na França: Macron perde maioria no Legislativo com derrota ‘histórica’ e avanço da esquerda e direita radical

A coligação do presidente francês, Emmanuel Macron, não conseguiu manter maioria absoluta no Parlamento no segundo turno das eleições legislativas, disputadas neste domingo (19) em clima de suspense em razão dos resultados apertados da primeira votação, realizada no último dia 12.

Os resultados oficiais divulgados pelo Ministério do Interior indicam que a coligação centrista “Ensemble!” (“Juntos!”) de Macron obteve 245 cadeiras na Assembleia Nacional. Para obter a maioria absoluta, seria necessário conquistar 289 dos 577 assentos.

Apesar de sua coalizão ter sido a mais votada, Macron precisará, na avaliação de especialistas, buscar alianças e terá grandes dificuldades para governar devido ao forte avanço de forças de esquerda e sobretudo da direita radical de Marine Le Pen, que obteve um desempenho recorde nesta eleição legislativa.

Após a divulgação das primeiras projeções na noite de domingo (19/6), a primeira-ministra do país, Elisabeth Borne – que também era candidata e conseguiu se eleger – disse em pronunciamento na TV francesa que nunca havia visto uma Assembleia Nacional como a que se configura agora.

“A situação representa um risco para o país, dados os riscos que já temos enfrentado nacional e internacionalmente”, declarou. “Vamos trabalhar a partir de amanhã para construir uma maioria.”

Derrota ‘histórica’

 

Emmanuel Macron, prisidente da França, durante discurso depois do encontro de líderes da UE — Foto: Johanna Geron/REUTERS

Emmanuel Macron, prisidente da França, durante discurso depois do encontro de líderes da UE — Foto: Johanna Geron/REUTERS

É a primeira vez que um presidente recém-eleito (reeleito, no caso de Macron) não obtém maioria absoluta para governar.

Um precedente já havia ocorrido com o socialista François Mitterrand em 1988, mas em circunstâncias distintas, já que na época ele não dispunha de uma maioria na Assembleia Nacional, diferentemente de Macron atualmente.

Era a oposição de direita republicana que dominava o Parlamento naquela época, e Mitterrand convocou novas eleições legislativas, obtendo maioria relativa.

“Macron diante do risco de paralisia política”, escreveu o jornal Le Monde em seu site. A derrota do presidente francês está sendo chamada pela imprensa francesa de “histórica”. Ele terá agora de enfrentar forças políticas que se opõem feroz e sistematicamente a tudo o que o governo apresenta.

A Nupes, sigla da Nova União Popular Ecológica e Social, uma coalizão das principais forças de esquerda do país, formada por iniciativa de Jean-Luc Mélenchon, líder da França Insubmissa, da esquerda radical, ficou em segundo lugar e conquistou 131 cadeiras, segundo o ministério do Interior.

Com o desempenho, a Nupes – que, além da França Insubmissa, reúne os partidos Socialista, Ecologista e Comunista -, se torna numericamente a principal força de oposição no Legislativo. A questão que se coloca agora é se a aliança, que deverá formar grupos separados no Parlamento em função dos partidos, conseguirá se manter unida e irá durar.

O resultado da coalizão representa um salto em relação à atual legislatura, onde a esquerda como um todo reúne menos de 80 deputados. Em um discurso nesta noite, Mélenchon afirmou que a “derrota do partido presidencial é total”.

Mas o avanço considerado inédito e que representa a evolução mais significativa – que não havia sido prevista nessas proporções nas pesquisas que precederam a votação – é o da direita radical de Marine Le Pen.

O Rassemblement Nacional (Reagrupamento Nacional) de Le Pen foi a terceira força mais votada e multiplicou por 12 seu número de deputados, alcançando melhor desempenho em uma eleição legislativa desde a criação do partido fundado por Jean-Marie Le Pen, pai de Marine, há 50 anos.

O Rassemblement Nacional passou de apenas sete deputados na atual legislatura, que se encerra, para 89, de acordo com os números divulgados pelo ministério do Interior. “É um tsunami”, declarou o presidente do partido, Jordan Bardella. O resultado inesperado é considerado uma guinada no cenário político francês.

Com o desempenho, a direita radical de Le Pen poderá, pela segunda vez em sua história (a primeira foi em 1988), formar um grupo no parlamento francês, que exige um número mínimo de 15 deputados. Isso garante mais meios materiais e financeiros, tempo para discursar, mas sobretudo o direito de apresentar projetos de lei.

“Esse grupo será de longe o mais numeroso da história da nossa família política. Nós atingimos nosso objetivo: tornar o presidente Macron minoritário, sem controle do poder”, declarou Le Pen neste domingo após a divulgação das estimativas. Ela também prometeu representar “uma oposição firme, mas respeitosa das instituições”.

O segundo turno destas eleições legislativas, como o primeiro, foi marcado por uma forte abstenção, de 53,8%, de acordo com o Ministério do Interior. Os jovens e operários são os que mais se abstêm de votar – na França, o voto não é obrigatório.

O duelo apertado entre a aliança centrista de Macron e a frente de esquerda Nupes no primeiro turno, que resultou em um empate, com uma diferença de apenas cerca de 21 mil votos a favor do Ensemble! de Macron, levou o presidente francês a lançar apelos às vésperas desse segundo turno, alertando que haveria “desordem” ou “bloqueio” da vida política francesa se ele não obtivesse uma “maioria sólida” no Parlamento.

Na França, tradicionalmente o partido do presidente que acaba de ser eleito (no caso de Macron, reeleito em abril) vence também as eleições legislativas que ocorrem na sequência do pleito presidencial. Isso é interpretado como um voto de confiança ao novo chefe de Estado, para que ele possa levar adiante seu programa de governo.

Mas Macron já vinha enfrentando forte oposição de parte do eleitorado, que se voltou para partidos radicais nas eleições presidenciais que reuniram mais da metade dos votos no primeiro turno em abril passado.

Quando foi eleito pela primeira vez, em 2017, Macron conseguiu obter sem dificuldades uma maioria absoluta no Legislativo, com 308 deputados, apesar de seu partido, recém-criado, não ter nenhum deputado na época.

Agora, sua sigla, rebatizada de Renascimento (antigo República em Marcha), teria obtido apenas cerca de 150 cadeiras, conforme estimativas. Os demais partidos de sua coalizão completaram a diferença, totalizando as 245 cadeiras conquistadas.

Dificuldade para governar

 

“É um fracasso para o presidente Macron. É um recuo maciço, um repúdio. Isso mostra claramente que os franceses quiseram sancionar o exercício de um poder visto como exercido de maneira solitária. E ainda a sua desconfiança em relação a vários temas, como a reforma da aposentadoria, o meio ambiente e o poder aquisitivo”, declarou Brice Teinturier, diretor do instituto Ipsos.

Para conseguir governar faltando dezenas de cadeiras para atingir uma maioria absoluta, restará ao presidente Macron tentar fazer um acordo com a direita tradicional de Os Republicanos, na avaliação de especialistas. O partido obteve 61 cadeiras e já apresenta divisões quanto a uma eventual aliança com Macron.

O presidente do partido, Christian Jacob, declarou neste domingo que os Republicanos se manterão na oposição. Mas personalidades como Jean-François Copé defendem um “pacto de governo”. Os Republicanos correm o risco de implodir por conta de uma eventual aliança com Macron e seus aliados, na avaliação de especialistas.

Também resta pontualmente, para o governo, a adesão de alguns socialistas que se opuseram ao acordo para formar a frente de esquerda Nupes por discordarem de pontos do programa de Mélenchon, sobretudo em relação à Europa.

Mélenchon defende o não cumprimento de alguns tratados da União Europeia, principalmente em relação às regras econômicas e orçamentárias.

O forte avanço de forças de oposição indica que a tarefa não será fácil para o presidente Macron. Com apenas 17 deputados na legislatura que se encerra neste domingo, a França Insubmissa de Mélenchon conseguiu entravar discussões, como a da reforma da aposentadoria, em 2020, apresentando mais de 20 mil emendas, praticamente idênticas, mas que precisavam ser analisadas individualmente, com o objetivo de atrasar a adoção do projeto de lei, depois retirado pelo governo.

Além disso, o Reagrupamento Nacional de Marine Le Pen também deverá entravar a ação do governo agora com meios parlamentares reforçados.

A perda de maioria absoluta deve complicar consideravelmente os planos de Macron de realizar uma reforma da aposentadoria que prevê ampliar a idade mínima dos atuais 62 para 64 ou 65 anos. A discussão, que está em aberto, deve ser apresentada ao parlamento em setembro.

“Vai ser muito difícil governar a França. Quais são as margens de manobra em um país real quando há uma esquerda radical ambiciosa e repleta de energia e uma direita radical na faixa de 17%?”, afirma o analista político Jerôme Fourquet, diretor de opinião do instituto Ifop e autor de vários livros sobre a vida política francesa.

“Poderemos ter um segundo mandato de Macron semelhante ao de Jacques Chirac entre 2002 e 2007, repleto de imobilismo”, acrescenta.

“Guerrilha à vista”, escreveu em sua edição de hoje o Jornal do Domingo, em razão da dificuldade para Macron de obter uma maioria absoluta e da forte oposição política de partidos radicais.

Quinze ministros de Macron disputaram as eleições legislativas. Três deles, como a ministra da saúde, Brigitte Bourguignon, sofreram derrota e deverão deixar o cargo, como já havia avisado o presidente Macron. Já a primeira-ministra, Elisabeth Borne, venceu na região do Calvados e deverá se manter no posto.

O mandato dos deputados eleitos neste domingo começa nesta quarta-feira.

Fonte: G1

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