O tabu dos relacionamentos entre pessoas com grandes diferenças de idade

A sociedade é cada vez mais progressista e muitas pessoas aceitam hoje que o amor pode se apresentar de muitas formas. Por que então as pessoas ainda condenam os casais com muita diferença de idade?

Existe um gráfico viral de 2019 que continua aparecendo nas redes sociais. Ele detalha o histórico de namoros do ator Leonardo DiCaprio.

Um usuário da plataforma Reddit detectou uma tendência nos namoros de DiCaprio: na época, ele tinha 44 anos, mas aparentemente namorou apenas mulheres com 25 anos de idade ou menos, sempre rompendo com as parceiras antes que elas completassem seu 26° aniversário.

As reações ao gráfico foram controversas. Alguns parabenizaram DiCaprio pela sua capacidade de atrair mulheres mais jovens, enquanto outros criticaram o ator, pedindo que ele encontrasse alguém mais próximo da sua própria idade.

Mesmo três anos depois, o gráfico volta e meia ressurge, enquanto as pessoas acompanham de perto o relacionamento atual de DiCaprio com a atriz e modelo argentina Camila Morrone – agora com 24 anos de idade.

As reações aos hábitos de namoro do ator incorporam as mesmas opiniões controversas em torno dos relacionamentos entre pessoas com grande diferença de idade. Para alguns, eles são fonte de admiração; para outros, existe algo inerentemente perturbador nas pessoas que têm relacionamentos com parceiros muito mais jovens.

Desde Demi Moore e Ashton Kutcher até George e Amal Clooney, os relacionamentos entre pessoas famosas com grandes diferenças de idade sempre causaram muitos comentários. Em 2014, a diferença média de idade dos relacionamentos heterossexuais dos Estados Unidos era relativamente pequena – 2,3 anos – mas a diferença de idade de muitos casais é bem maior.

Pule Podcast e continue lendo

Podcast
BBC Lê
BBC Lê

A equipe da BBC News Brasil lê para você algumas de suas melhores reportagens

Episódios

Fim do Podcast

Nos países ocidentais, cerca de 8% dos casais heterossexuais possuem diferença de idade de 10 anos ou mais. Esse percentual aumenta para 25% nas uniões homossexuais entre homens e para 15%, entre mulheres. E, em alguns casos, a diferença é ainda maior – os dados indicam que cerca de 1% dos casais heterossexuais nos Estados Unidos possuem diferença de idade de 28 anos ou mais.

Nossas opiniões sobre os relacionamentos entre pessoas com grande diferença de idade são moldadas por normas sociais e culturais.

Nos últimos cem anos, mudanças econômicas e maior igualdade de gêneros alteraram a diferença de idade considerada “normal” e movimentos recentes de justiça social aumentaram as críticas à dinâmica de poder nos relacionamentos com grande diferença de idade. Esse tipo de casal muitas vezes enfrenta julgamentos – e, embora alguns especialistas acreditem que isso possa mudar em breve, outros argumentam que o nível de desaprovação dos jovens atuais pelo amor com diferença de idade talvez seja maior que o das gerações anteriores.

Consequência da evolução

As pessoas que desaprovam os hábitos de namoro de Leonardo DiCaprio têm os seus antecedentes. A aversão aos relacionamentos entre pessoas com grande diferença de idade é muito comum e, como a maioria dos tabus, originou-se em milhares de anos de evolução e indicações socioculturais mais recentes.

“Em muitas culturas, não é considerado aceitável apaixonar-se por alguém que seja muito mais jovem ou mais velho que você”, segundo Elena Touroni, consultora em psicologia e uma das fundadoras da Clínica Psicológica de Chelsea, em Londres.

“Do ponto de vista evolutivo, a vontade de formar família pode influenciar a escolha da pessoa com quem queremos ter um relacionamento, tanto do ponto de vista biológico, mas também para que os dois pais estejam vivos para criar os filhos”, segundo ela.

Tanto para os homens quanto para as mulheres, a fertilidade tende a cair depois de cerca de 35 anos de idade. E, embora as mulheres percam sua capacidade de conceber filhos com muito mais rapidez, faz sentido que tenhamos evoluído para sermos atraídos por pessoas com idades similares.

Embora haja relativamente poucos dados sobre as idades nos relacionamentos LGBTQIA+, sabemos que as diferenças de idade entre casais do mesmo sexo são muito mais comuns, talvez refletindo a influência da capacidade de concepção biológica sobre a forma como procuramos um parceiro.

Mas nem tudo é sobre a criação de filhos. Pesquisas indicam que formar um casal com alguém de idade similar aumenta a probabilidade de seu relacionamento durar mais tempo. Os especialistas acreditam que isso ocorre porque esses casais tendem a atravessar etapas e desafios da vida em épocas próximas e, portanto, podem continuar a encontrar coisas em comum.

“Nos primeiros 10 anos de casamento, as pessoas relatam níveis mais altos de satisfação conjugal quando seu parceiro é mais jovem”, segundo Grace Lordan, professora de ciências do comportamento da London School of Economics, atualmente pesquisando relacionamentos com grande diferença de idade e a felicidade.

“Mas, ao longo do tempo, a satisfação conjugal de casais com grande diferença de idade diminui mais que os parceiros com idades similares”, segundo ela. “A probabilidade de divórcio entre casais com idades similares também é menor.”

Mas, apesar desses fatores que nos influenciam a escolher parceiros da mesma idade, as circunstâncias socioeconômicas às vezes podem contrariar os ímpetos evolutivos. Em 1900, a diferença média de idade entre os casais era quase o dobro da diferença em 2000. Historicamente, as pessoas (particularmente da classe média e das classes mais altas) teriam muito mais propensão a casar-se com alguém muito mais jovem ou mais velho do que elas.

Os motivos para este fenômeno são biológicos e econômicos. Se um homem com 50 anos de idade quiser ter filhos, ele não terá interesse em casar-se com uma mulher de idade similar, que tem muito menos possibilidade de ser fértil. Em uma sociedade patriarcal, na qual os homens detêm o poder econômico, a opção de casar-se com uma mulher muito mais jovem provavelmente seria mais acessível para ele.

No século 19 e no início do século 20, a maioria das mulheres era excluída da força de trabalho, de forma que fazia sentido para elas priorizar o casamento com alguém que já tivesse atingido segurança financeira. Já para os homens, fazia sentido estabelecer-se economicamente em primeiro lugar, para depois se preocupar com o casamento – afinal, devido ao seu maior poder social, eles podiam encontrar esposas mais jovens que oferecessem maior possibilidade de ter filhos.

Quem nós condenamos e por quê

À medida que as mulheres ganhavam maior poder econômico, o apelo de um marido muito mais velho diminuiu, tornando os relacionamentos com grande diferença de idade menos comuns – e, muitas vezes, um tabu maior. E, atualmente, os casais em que uma das pessoas é muito mais velha que a outra ainda enfrentam julgamentos, mesmo com a maioria das sociedades adotando ideias cada vez mais progressistas sobre o amor, os relacionamentos e a riqueza de variedades em que eles podem se apresentar.

Em vez de admitir que as pessoas são felizes juntas, existe a tendência de preocupar-se com possíveis desequilíbrios de poder e considerar o relacionamento uma transação, presumindo que uma das partes está buscando elevar seu status social ou aumentar sua riqueza.

Em inglês, existem até expressões específicas para definir esse julgamento: “sugar daddy” (algo como “papai doce”) define o homem mais velho, enquanto a mulher mais jovem pode ser “gold-digger” (“caçadora de tesouros”) ou vítima de “daddy issues” (“problemas com o papai”).

O presidente francês Emmanuel e a primeira-dama Brigitte Macron

CRÉDITO,ALAMY

Legenda da foto,O relacionamento entre o presidente francês Emmanuel e a primeira-dama Brigitte Macron, casados desde 2007, foi alvo de críticas na imprensa

Nos últimos anos, o idioma inglês expandiu esse tipo de vocabulário para incluir relacionamentos em que as mulheres são o parceiro significativamente mais velho. Palavras como “cougars” (“pumas”) e “toyboys” (“meninos de brinquedo”) refletem o aumento desse tipo de relacionamento.

Estatísticas demonstram que, em 1963, apenas 15% das noivas britânicas eram mais velhas que seus noivos. Mas, em 1998, esse número havia subido para 26% e um estudo de 2011 concluiu que o número de mulheres casadas ou que moravam junto com um homem cinco anos mais jovem ou mais havia quase triplicado desde os anos 1970.

As mulheres que decidem namorar homens mais jovens parecem enfrentar julgamentos desproporcionais. “Nós, humanos, julgamos tudo e, se o nosso vizinho fizer algo fora daquilo que esperamos, nós colocamos um holofote sobre ele”, afirma Lordan. “As mulheres que se casam com homens mais jovens vão contra o que é esperado com relação à nossa narrativa de casamento. Por isso, elas sofrem os maiores julgamentos.”

A atenção da imprensa em torno do casamento do presidente francês Emmanuel Macron com sua esposa Brigitte – 24 anos mais velha que ele – e a exaltada cobertura do relacionamento entre a modelo e atriz Kim Kardashian (41 anos de idade) e o ator e comediante Pete Davidson (28 anos) somente confirmam isso. Mas Touroni acredita que os relacionamentos entre homens mais velhos e mulheres mais jovens recebem condenação ainda maior que os casais em que as mulheres são mais velhas que os homens.

Talvez isso esteja relacionado, em parte, ao movimento #MeToo, que chamou a atenção para a dinâmica de poder nos relacionamentos. Algumas pessoas argumentam que uma diferença significativa de idade, combinada com o poder socioeconômico exercido pelos homens na sociedade dominada pelo sexo masculino, pode deixar as mulheres jovens em posição vulnerável.

Um estudo realizado pouco depois do movimento #MeToo mostra que muitos observadores acreditam que existe um aspecto de exploração nos relacionamentos com grande diferença de idade. Pesquisadores concluíram que os jovens rejeitam particularmente os relacionamentos em que o homem é mais velho, supostamente porque eles acreditam que se trate de uma relação de troca – por exemplo, com as pessoas trocando sexo por um dado estilo de vida.

O tabu da diferença de idade irá desaparecer?

Existe hoje em dia cada vez mais aceitação de que todos os relacionamentos são diferentes – seja com relação à sexualidade, gênero ou até ao número de pessoas no mesmo relacionamento.

Elena Touroni espera que, quanto mais tipos de relacionamentos forem considerados normais, mais as pessoas respeitarão as escolhas das pessoas em relacionamentos com grande diferença de idade. Para ela, “vivemos em uma era de maior liberdade e flexibilidade e eu gostaria de pensar que, com o passar do tempo, nós faremos muito menos julgamentos sobre as escolhas de relacionamentos de outras pessoas, seja com relação à diferença de idade ou qualquer outra questão”.

Mas existem poucas evidências de que a fascinação da sociedade pela diferença de idade nos relacionamentos esteja diminuindo. Os casos de amor temporários das celebridades ainda preenchem as manchetes com frequência e os jovens parecem condenar cada vez mais os relacionamentos com grande diferença de idade, em comparação com as gerações anteriores – particularmente quando o homem é mais velho que a mulher. Como os jovens normalmente estão à frente das mudanças sociais, essa desaprovação pode significar que o tabu da diferença de idade poderá criar raízes ainda mais profundas.

“De forma geral, eu realmente mantenho a esperança de que estamos julgando menos os outros, sejam quais forem suas escolhas. Mas as narrativas do que é um ‘bom’ relacionamento estão tão consolidadas na sociedade ocidental que é improvável que possamos chegar a uma situação em que as pessoas parem de julgar opções de estilo de vida dos demais que contrariem essas normas, incluindo os casais com grande diferença de idade”, conclui Grace Lordan.

Fonte: BBC NEWS

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.